As Estrategias da Comunicação

Monday, May 14, 2007

Aula 15 - Criar «factos políticos» (os pseudo-acontecimentos como elementos das estratégias de comunicação)

Cinco exemplos de frases ditas por protagonistas diferentes em que apareça a expressão «facto político»

1 – “Ao atacar Maria José Morgado, Paulo Portas visou criar um facto político com dois objectivos dar corpo ao levantamento interno contra Ribeiro e Castro, provando que com o estalar de um dedo consegue fazer virar para si todos holofotes; dar continuidade à sua antiga urticária contra uma mulher afastada do combate ao crime durante os tempos em que co-governava (?) o país. O ataque nada tinha, portanto, a ver com o que era enunciado já que Portas bem sabe que a cidadania ainda não morreu e nem só quem colabora com o CDS tem direito ao bom nome em Portugal.”

2 – “Fernando Rosas tem a caucioná-lo não um passado como o de Nader, mas o trabalho notável do BE, sem dúvida o único facto político novo e verdadeiramente auspicioso depois da candidatura presidencial da Eng. Maria de Lourdes Pintasilgo em 1986. E, ao contrário dos norteamericanos, os portugueses de esquerda que votarem em Rosas para fortalecerem o BE fá-lo-ão livres do fantasma do voto útil já que é certo que o Presidente Sampaio ganhará tranquilamente as eleições.”

3 – “Apesar de ter sido o acontecimento político-social mais relevante da semana e o que envolveu mais gente, é curioso reparar o pouco destaque que lhe foi dado pela imprensa. Praticamente durante toda a semana não se fizeram referências à realização deste evento e depois os jornais dão-lhe um destaque reduzido, remetendo-o para as obscuras páginas secundárias. Em contrapartida a OPA sobre a PT é dissecada até à exaustão, apesar de não passar duma guerra privada entre grupos capitalistas e que envolvem apenas algumas centenas de pessoas. Um outro facto político ainda mais irrelevantes (umas declarações assaz contraditórias de Paulo Portas) são alcandoradas à categoria do facto político mais relevante da semana. É esta a imprensa que temos. Nada que nos admire, até porque Antonio Gramsci já tinha escrito algo que lido à luz da imprensa portuguesa contemporânea se torna fundamental para compreendermos estes mecanismos:“Todos os dias, pois, sucede a este mesmo operário a possibilidade de poder constatar pessoalmente que os jornais burgueses apresentam os fatos, mesmo os mais simples, de modo a favorecer a classe burguesa e a política burguesa com prejuízo da política e da classe operária. Rebenta uma greve? Para o jornal burguês os operários nunca têm razão. Há manifestação? Os manifestantes, apenas porque são operários, são sempre tumultuosos, facciosos, malfeitores.O governo aprova uma lei? É sempre boa, útil e justa, mesmo se não é verdade. Desenvolve-se uma campanha eleitoral, política ou administrativa? Os candidatos e os programas melhores são sempre os dos partidos burgueses. E não falemos daqueles casos em que o jornal burguês ou cala, ou deturpa, ou falsifica para enganar, iludir e manter na ignorância o público trabalhador.”

4 – “Mas também há circunstâncias e oportunidades em que, como disso há experiência, pode não passar de um fugaz «facto político» que, tirando uns perversos títulos de jornais sobre «namoros» e «tampas», dura meia dúzia de horas, precisamente as que podem separar a sua apresentação da sua rejeição pelo PS, com a consequente consolidação na opinião pública da ideia – pouco mobilizadora e esperançosa - de um total bloqueamento ou impossibilidade da alternativa de esquerda. Como, em nossa opinião, teria sido o caso da ideia avançada de que o PCP deveria ter apresentado ao PS, em plena pré-campanha das legislativas, uma «plataforma política» (que, entretanto, ninguém se atreveu a desenhar no concreto) com o argumento suplementar de que se o PS a recusasse então arcaria com as responsabilidades. Cremos porém que, a ser possível a sua elaboração, a ser séria e a não representar uma rendição do PCP, uma tal «plataforma» teria sido liminarmente rejeitada pelo PS com a muito negativa consequência de, em plena campanha, desanimar a esperança num eventual entendimento pós-eleitoral entre o PCP e o PS. E talvez assim se possa ver como certas propostas embrulhadas em celofane de «abertura» e de «convergência à esquerda» poderiam, na prática, descambar em actos sectários, em tácticas egoístas de duvidosa eficácia e em prejuízos para todo o campo democrático, em indirecto benefício para a direita.”

5 – “Os partidos políticos constituem uma forma particularmente importante das associações de natureza política. O desenvolvimento natural do processo associativo em Portugal impôs já como facto político a existência de partidos políticos. A necessidade de se criarem condições para aperfeiçoamento, por forma institucional, da via democrática da participação dos cidadãos na vida política torna imperioso regular-se imediatamente essa forma associativa.
Os partidos políticos já revelaram, quando efectivamente dispostos a assumir os encargos e responsabilidades de governo, a sua capacidade de mobilização e intervenção na vida política do País.”

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