As Estrategias da Comunicação

Monday, May 14, 2007

Aula 16 - Conversa com Custódio Oliveira

Um pseudo-acontecimento não passa de construir uma realidade falsa, de modo a que os meios de comunicação façam dela uma boa noticia, embora muitas das vezes nem saibam até que ponto é verdadeira ou construída e se são ou não persuadidos.

O conceito de pseudo-acontecimento ou (pseudo-event) foi criado por Daniel Boorstin.

Qualquer instituição, um governo, um partido, mesmo uma pessoa individual, pode preparar um evento com o objectivo de lhe dar existência através da imprensa, da rádio ou da televisão, assim como também estes meios promovem factos noticiosos em benefício da sua própria imagem (embora servindo também o interesse público).

Numa conversa com Custódio Oliveira, sobre estratégias de comunicação, o ex-assessor de imprensa de Fernando Gomes, na Câmara do Porto, contou um caso que no meu ponto de vista é um pseudo-acontecimento, inserido numa estratégia de comunicação.

No ano de 92/93 houve a construção do shopping do Bom-Sucesso, esta construção estava envolta em grande polémica, pois a obra violava o PDM e não havia qualquer licenciamento por parte da Câmara.
O caso estava a tornar-se cada vez mais polémico porque era tudo pouco claro e a Câmara estava a ficar fragilizada.

Fernando Gomes um dia é entrevistado na rua por um jornalista do jornal “Público”, e cai no erro de dizer que não queria uma cidade de “carneirinhos”. Estas palavras caíram mal e a Câmara continua cada vez mais envolta em polémica.

O assunto da obra que não tinha licença e as palavras de Fernando Gomes acerca da sua desejada “cidade do cimento” estão sempre na ordem do dia, tanto nos meios de comunicação social como na opinião pública.

Foi então necessário traçar um plano de emergência, pois faltava um ano e meio para as eleições e a crise estava instalada.
Era necessário desviar as atenções e retirar a ideia da “cidade do cimento” – plano de comunicação de crise.

A estratégia passou por:

  • O Presidente deixou de falar na obra, o assunto relativo ao shopping era da responsabilidade do Vereador do Urbanismo.
  • Fernando Gomes decidiu apostar no Parque da Cidade. O Parque da Cidade inicialmente planeado com condomínios de luxo, uma avenida e uma auto-estrada que passaria ao meio do parque, ou seja, de espaço verde haveria pouco.

Todos estes planos para o Parque da Cidade foram colocados de lado, e depois de várias reuniões com arquitectos decidiu-se a elaboração de um novo projecto.

O novo projecto consistia em mostrar o verde da cidade, e que a cidade não era em tons cinzentos, como Fernando Gomes teria dito anteriormente.

O Parque da Cidade seria até ao mar, sem construções, sem avenidas, o que o tornaria no maior Parque da Europa com frente marítima.

Houve muitos planos de comunicação, entre os quais foram alugados helicópteros e convidados jornalistas a sobrevoar a zona do Parque da Cidade para lhes mostrar o verde do Parque e o novo projecto.

A verdade é que todas as atenções foram desviadas, e na opinião de Custódio Oliveira, de todos os mandatos de Fernando Gomes, na Câmara do Porto, a construção do Parque da Cidade é a mais positiva, que não deixa de ser “filho do buraco do Bom-Sucesso”.

A opinião pública e os meios de comunicação social deixaram de falar na falta de licenciamento do shopping e na “Cidade do Cimento” de Fernando Gomes, e passou a ser ordem do dia o assunto do plano do Parque, quando tudo não passou de um pseudo-acontecimento inserido numa estratégia de comunicação criado somente para desviar as atenções.

0 Comments:

Post a Comment

<< Home